terça-feira, 30 de dezembro de 2025

dádiva de luz são seus olhos
quando me olham

da mente tranquila
e do coração sereno
todo caos será cosmos

mesmo seco o sertão da gente
viola caipira

sem espera
e sem esperança
nunca se alcança

nem tampouco

sem esforço
e perceverança



deixo devagar o tempo me levar
irei passo a passo até breve
no rítmo sincero e leve
do pulsar no meu coração

não tenho medo
tenho esperança
igual criança
quando dança
com a noite límpida





tenho observado, apenas
das mãos, agora recolhidas aos bolsos da calça
fechadas e com os dedos apertados
trago a energia de recomposição da minha mente

você me observa de longe, até pelo pensamento
enquanto passo rasteiro e rápido
movendo-me sem significado, sem história

o vão do canto da parede é tão grande
é tão extremo o teto com o ventilador ligado
tudo imaginado em uma conexão

minhas mãos abertas e voltadas para cima
meus olhos fisgados pela sua longitude
através do espelho embaçado pelo vapor do chuveiro

ah, isso foi o que tinha imaginado
isso foi o que nos tornou as cinzas
isso passou, voce ficou, eu fui ...

não que o dia tenha transcorrido sem abalos, não que a vida tenha o cheiro eterno da primavera, não que eu não sinta falta de um abraço, não que nao procure satisfazer meu ego no espelho, não que eu não minta para ser gentil, não que eu não diga bom dias felizes, não que eu não seja simpático, não que eu não me cuide para atravessar a rua, não que eu não respire o primeiro ar do dia quando abro a janela, não que eu não entoe um Mantra, não que eu não...

mas que sim, ainda que fora
o que eu tivesse imaginado

pudera
a luz do sol ilumina
todo coração alegre

e ficamos leves

tanto que depois
ficou como antes
existe, efetivamente, um monstro
embaixo de cada cama

no escuro, no silencio do quarto
ele surge na forma de conflito

mas ele não come sua carne
ele come um pedaço do seu ego
e você vai ficando um tanto estranho...

o monstro de debaixo da cama
se chama "auto conhecimento"


la diferencia está en los ojos de quién mira
ao invés de escolher algo pronto
como um molho de tomate enlatado
escolha os tomates frescos
"beija-me a boca amor
com sua boca vermelha"

só seu sorriso me basta
só se sabe quando já se foi
"hoje, eu quero a rosa mais linda que houver
quero a primeira estrela que vier
para enfeitar a noite do meu bem"

tenho estado comigo e resignado
nada, ou quase nada, me resta da
Lisboa frenética de Álvaro de Campos
pois, eu mesmo, nunca vivi em Lisboa
tanto faz, eu sei, para o Fernando Pessoa

mas, se tenho vivido mais calmo
isso não me faz ser menos vivo, pelo contrário
o que tenho feito é prestar mais atenção
em detalhes outrora ignorados e inofensivos

tenho observado o outono de perto
cada folha que cai da árvore à frente de minha janela
cada marca de expressão nas faces de quem até não conheço
cada gesto das pessoas que passam por mim na rua

assim, vou fortalecendo minha identidade
mesmo que seja para enfraquece-la depois
quando o inverno soprar minha cortina
e eu lembrar que já gostei muito de alguém
que não estará no quarto para me dar um abraço

pensando bem
eu moro em todas as Lisboas
que cantam comigo alguma canção
moro na rua sem nome
moro para o mundo me esquecer

ei, Pessoa, você nunca me esqueceu, não é mesmo?
pois eu tenho te esquecido em cima de uma geladeira vazia...
veste-me com a tua prece
mas não te apresses
que já sou teu
em sua lápide, ele escreveu(rá):
vivi para todos eles, menos para mim
eles, os heterônimos, semis e plenos
me tomaram a identidade
o meu nome foi rabiscado
e, a duras penas, aprendi
verso só se faz por si outro, mesmo
é certo que na vida tudo tem um sentido
mas, as vezes, ele está muito escondido
o inverno vem sem dó
invadindo meu corpo
que está tão só