quarta-feira, 2 de julho de 2008

identidades - convulsões da alteridade

"Eu chego a mim desde o Outro, sem poder parar em mim, na incessantetentativa de unir esta dispersão e dela explorar, a cada vez, a infinita abertura:como um trabalho incessante do luto e da hospitalidade do outro em mim e forade mim, que nunca termina, e que nunca termina de nos definir. Amiúde, nesseencontro emergem aparentes formas de não participação, uma oposição, um vaziode respostas que tornam a questionar radicalmente nossas próprias ficções, nossaspróprias máscaras de identidade"

(Mauro Maldonato)


não é em ti que te encontrará
como a máxima proclama

o Eu está no Outro
e nunca fadado ao fim...
o Outro está em em Mim
e sempre disposto

olha o teu rosto!
olha pro teu gesto
sente o teu gosto
e aí estará
a face
o gesto
o gosto
do Outro...

terça-feira, 1 de julho de 2008

"Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus — enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro" (Início do conto Pequenas Epifanias, do Caio Fernando Abreu)

PS: Com amarelo de Frida Kahlo
me entupo de mate logo pela manhã
que é para ficar bem lúcido
a toda agressão gratuita
a todo torpor desses pobres humanos
que não percebem a sua insignificância
e se debatem como minhocas envenedas
arde no peito o grito calado
de todos os nossos desejos reprimidos
desde de antes do nosso nascimento

aí, cometemos nossas mortes simbólicas
pequenos assassinatos do cotidiano
onde a discordância impera
como estatuto programado
para sempre acontecer
e é isso que queremos
que aconteça

a pergunta descenecessária
a resposta arbitrária
o sorriso irônico
o gesto estapafúldio

queremos o sangue do outro
a sua redenção ao nosso orgulho
a nossa Verdade Santa e Promíscua
ao nossa Vontade insana
de subjulgar, de explorar
de ver sofrer, de tirar proveito
de dizer:
Sim! Eu sou superior a você!
Por isso te escarro,
Por isso minha Razão
Tem a força de rasgar a tua pele
E expor seus nervos fracos
E seu sangue covarde

ah! Razão essa de tanto sofrimento...
quando poderíamos ter menos Razão
e muito mais entedimento

domingo, 29 de junho de 2008

avesso

não me deixe ir, preciso ficar
ficar aqui para me perder
chorar para não rir

quero assistir ao sol se pôr
ver a aguá parada de um lago
e os pássaros calados
quero morrer, padecer

niguém vai por mim perguntar
mas não diga que eu vou ficar
ficar para me perder
"[...]
Sei que cantar-te assim é não cantar-te - mas que importa?
Sei que é cantar tudo, mas cantar tudo é cantar-te,
Se que é cantar-me a mim - mas carta-me a mim é catar-te a ti
Sei que dizer que não posso cantar é cantar-te, Walt, ainda..."

Álvaro de Campos

Embala a dor do despeito na ação de me fazer suspeito de gostar de ti
Mas não ranque a esperança do meio peito
Nem atire pedra contra esse sujeito
Que ainda pode te fazer feliz...

sexta-feira, 27 de junho de 2008

atmosfera

no andâime da pia
um pequeno copo

com água
reflete
a luz do sol

da tarde
em seu início